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17 de abr de 2009

Circo


Subo os degraus úmidos mais uma vez, com cuidado para não resvalar. A madeira range um pouco e já estou de volta à cadeira. Sento e cruzo as pernas, sorridente.
Por volta do século XIX, Barnaum percorria todos os EUA e o mundo caçando aberrações. Com um tino comercial e observador do comportamento humano surpreendente, descobriu o seu pote de ouro no final do arco-íris. As pessoas se comprazem com a desgraça alheia. E é bom sentir que se está sentindo pena de alguém.
Índios e leões magros enjaulados também atraem público. As pessoas chegam com suas caras apalermadas mastigando pipoca e fazendo pose em fotografias estúpidas. Os índios com seus peitos nus e sandálias havaianas não atraem tanto público, mesmo assim, vendem seus arcos e flechas à preço de banana que dá para o próximo trago. Os visitantes chegam ávidos por uma dança da chuva, talvez, e algumas mulheres pensam em levar para suas coberturas algum filhote curumim de estimação. As reservas também são incríveis, parecem sussurrar através do vento e folhas “podem destruir o resto, estaremos bem aqui quando não sobrar mais nada”.
Muitos flashes e suspiros excitados para a beldade de três seios direto de Chernobyl, para as anomalias, deformações, monstruosidades. Vivas para a mulher barbada, o homem-elefante, a garota-deusa com quatro braços...
O garoto de boné azul, pela décima vez, toma o primeiro lugar na fila. Com a língua um pouco para fora, segura firme a bola de borracha, apertando os olhos. Concentra-se. E num arremesso furioso acerta em cheio o alvo abaixo dos meus pés pendurados.
Fecho os olhos e um som metálico faz meu corpo tremer de um jeito cômico, caindo e respingando água para os lados, sentindo a água entrar nas orelhas, fria. Ouço os urras e assobios, palmas e risadas. Levanto devagar e subo as escadas: recomeça o jogo.

Vídeo do texto:
http://www.youtube.com/watch?v=ri8fQ-7eVAY&feature=related

4 comentários:

  1. Como diriam os antigos o circo surgiu para distrair e divertir o povo, e como fazemos isso nos tempos modernos, através de monstruosidades, o que nem estas últimas andam dando resultado de atrair a atenção alheia. Pois tudo sempre está a um clic de nós, acho que o circo só mudou de lugar - foi parar nos computadores.

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  2. alo SHEYLA

    como complementação ao texto vale ler
    "AGUA PARA ELEFANTES"

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  3. Aloha deste lado do Mundo...
    Confesso-te; nunca gostei de circo...infelizmente vivo muitas vezes num !
    Enfim...circunstancias. Sempre boa a tua prosa.
    Gosto de te visitar. Esta semana vou apanhar mais pedrinhas...
    Bj doce daqui pr'aí....

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  4. Bom, hein? Grata surpresa, receber teu comentário. Ganhei mais uma leitura diária. E você, um leitor.

    Circos são estranhos, conheço bem como funcionam os bastidores. Minha mãe já foi circense... as histórias dão pena, sabe? Criei um certo trauma.

    Até o próximo texto.

    =*

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