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10 de set de 2013

Street View

- Roberto, tenho uma coisa importante pra te falar, dá pra desligar um pouco essa droga de telefone? - Ta bom, ta bom, fala amor, o que ‘cê quer? - Roberto, todos esses anos que estamos juntos, eu fui fiel a você, sabe disso, né? - Claro, mas, por que você... - Não me interrompa, Roberto, me deixa continuar. Todos esses anos eu fui fiel apesar de todos os bolos, as caras feias, os joguinhos de futebol, playstation e carnaval... - Carnaval? - Sim, eu apenas fingi que acreditei naquela sua história que seu tio-avô carioca faleceu bem no dia do desfile das campeãs. Sim, eu investiguei, não adianta me olhar com essa cara, não. Mas, como era comecinho de namoro, resolvi dar uma chance. Ah, eu não tive febre de 40°, fui pra Paulista, mas tudo bem, não rolou nada, to dizendo, sempre fiel. - Sei... - Então, como eu dizia... - ...todos esses anos... - É. Escutei enxurradas de cantadas, das mais diversas e em diversas situações por diversas pessoas, aliás, fica a pergunta, por que, ó Deus, se é mais cantada por caras interessantes quando se está acompanhada? Enfim... - Não estou gostando dessa história, o que aconteceu, Verinha? Fala logo, amor (pensando: droga, fui banido do jogo!) - O caso é que ontem, encontrei um action figure do Big Daddy que você tanto queria, por um preço incrível, mas só na loja física. É, isso mesmo, pro seu aniversário. E enquanto eu procurava o endereço da loja no Google Street View, por uma coincidência celestial, sabe quem eu vejo com meus próprios olhos, na tela do meu computador, se esfregando com uma loira na rua das Roseiras, Roberto?!!! Sim!!! Você, Roberto! Não, não me venha tentar explicar nada. Pra mim, chega, terminou, deu, já foi, adeus! - Vera, Verinha, escuta aqui, vamos conversar, espera um pouco, não vai embora, espera, volta aqui, me mostra isso, garanto que é apenas um mal-entendido, você nunca viu essas fotos bizarras que circulam na net do Street? Você até compartilhou esses dias! É distorção, sabe, a luz e tal, espera, vai levar o note tb? Calma, pô! - Ah, só mais uma coisa, Roberto, em cima da mesinha de centro da sala, tem uma lista com todas as cantadas bacanas que já ouvi. Logo abaixo, tem o autor, a maioria você conhece, e se tiver ‘et al’ é que foi usada por mais de um. Vai que agora você precise né? Tchau!

25 de mai de 2013

O carro do Jorginho e o pequeno Albert

Tudo começou quando, eu, na carona de um amigo, o ouço comentar que o que queria mesmo, era comprar um carro igual ao do Jorginho. Fiquei algum tempo pensando, por que trocar um carro relativamente novo e em perfeito estado, por outro e, afinal, quem era esse tal de Jorginho?
- O Jorginho, da novela.
Caí na gargalhada. Não fazia ideia, mesmo. Porém, depois do episódio, meu cérebro passou a prestar mais atenção e reparar nisso e cheguei mesmo a ouvir de um motorista do ônibus para o cobrador, a mesma sentença. E, por fim, percebi que a cidade estava repleta de carros do Jorginho.
O pessoal da propaganda&marketing se superou desta vez, pensei. Atingiram um público mais resistente às novelas, por tradição, tocando em seu ponto nevrálgico: automóveis. Deveras, o alcance da telenovela brasileira é imenso, modificando até sonhos da velhice, como o das idosas que morreram em um acidente de balão na Turquia.
Paralelamente, lia sobre a evolução da Psicologia e encontrei um texto sobre o behaviorista do início do séc. XX, John Watson, da Carolina do Sul, EUA. Watson defendia a teoria de aprendizagem por estímulo-resposta, direcionando a psicologia em prever e controlar o comportamento. Depois de sua experiência com militares durante a I Guerra Mundial, Watson direcionou seus experimentos com animais, para humanos.
Assim, iniciou uma série de experimentos com “Albert B.”, um bebê de nove meses, selecionado em um hospital infantil. O objetivo do trabalho era determinar se era possível ensinar uma criança a sentir medo de um animal, apresentando-o repetidas vezes a um barulho alto e assustador, além de saber se esse medo podia ser extrapolado para objetos semelhantes, se era temporário ou não.
Nessas experiências, Watson provou que as emoções humanas são suscetíveis ao condicionamento clássico, podia ser controlado e modificado. Mas, não conseguiu concluir se era de fato, duradouro, pois a mãe de Albert o retirou do hospital.
Watson afirmou: “Dêem-me uma dúzia de crianças saudáveis e bem formadas e meu método específico para criá-las: garanto que posso escolher aleatoriamente qualquer uma e treina-la para se tornar qualquer tipo de especialista – médico, advogado, artista, comerciante e, sim, mesmo mendigo e ladrão -, independente de talentos, aptidões, tendências, habilidades, vocações e raça de seus ancestrais”.
Depois de um escândalo amoroso com sua assistente (ele era casado), Watson renunciou ao cargo e partiu para a carreira de...PUBLICITÁRIO, onde, óbvio, obteve grande sucesso, demonstrando que as pessoas podem ser induzidas a comprar produtos pela imagem e não pelo conteúdo.

7 de nov de 2012

Fazia calor, mas não era só lá fora


'E eu vou guiando
Eu te espero, vem?
Diga que você me quer,
Porque eu te quero também.
E eu te amo!
E eu berro: Vem!
Grita que você me quer
Que eu grito também!
E eu gosto dela
E ela gosta de mim
Eu penso nela
Será que isso não vai ter fim?'

10 de ago de 2012

Já virou cicatriz

Todo aquele estado febril
queimando por dentro
E toda aquela loucura
lava quente
boca, lábios, pernas e dentes
E todo aquele choro
E toda aquela fúria
E toda aquela angústia
de dias, meses e anos
São dias que passaram
Saíram do Hipocampo
E estão lá, guardadas no Córtex
Já não sangram mais.

12 de jul de 2012

Over

Tem amanhecido muito frio, mas, basicamente, os dias são os mesmos. Os cachorros dormem em roscas e sorriem com seus rabos peludos. Todos os dias. Em alguns momentos, dou muita risada e em outros, não. O jornal chega religiosamente ao chão em frente à porta pelas mãos invisíveis de alguém que eu nunca consigo ver. Todos os dias. Invento rotas diferentes para ir na padaria e pratos diferentes para o almoço. Já pensei em mudar o cabelo, mas agora não. Leio muitas coisas ao mesmo tempo e realmente, eu não sei nada sobre coisa alguma. O vapor da água na chaleira embaça os vidros da janela e um sol tímido teima em querer furar aquela nuvem de chumbo. Todos os dias.