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1 de ago de 2009

Frio

- Tem 2º Grau completo?
- Não, senhor, mas fiz até a 8ª...
- Bem, eu tenho aqui uma vaga numa transportadora, carga e descarga, se for do seu interesse...
- Sim, sim! Pode colocar meu nome aí.
- Muito bem, enviarei suas qualificações para a empresa e se estiver tudo certo entraremos em contato.
- Obrigado.

Saiu rápido pela porta, num misto de atordoamento e desespero. Dois meses procurando emprego e isso era o mais perto que havia chegado de um. Passou pela secretária, uma sala enorme, muitas cadeiras e pessoas, um ventilador no teto, o chão liso, um tapete, o solado gasto. Um clarão e um silêncio, depois algumas risadas abafadas, outras nem tanto, era só o que faltava para coroar a tarde, um tombo! Recolheu seus papéis, ajeitou a calça e saiu sentindo um fogo subir pelas bochechas, abocanhar as orelhas.

Na rua, já não lembrava mais do incidente. Procurou nos bolsos, não tinha o dinheiro da passagem completa da volta. Teria que encarar alguns quilômetros à pé com aquele sapato apertado. Coçou a nuca, deu uma cuspida para o lado, meio que se preparando para uma pequena batalha e seguiu em frente. As pessoas iam e vinham apressadas, empurravam, se acumulavam em esquinas para apreciar alguns pobres diabos com seus espetáculos de fome, o barulho dos ônibus, os zumbis deitados pelas calçadas.

O sol foi se apagando e já estava a poucas quadras de casa. Pelo menos economizara uns trocados para o pão. Chegou em casa, cabeça baixa, largou o pão em cima da mesa e foi tomar banho. Não queria encarar o olhar da mulher, lavando louça, só disse “oi”, tirando o sapato.

Saiu do banho logo depois e ficou um tempo sentado, com a toalha no ombro, pensando em nada, estava tão cansado. Uma bolinha de pano, com listras verde, azul e vermelha veio rolando e parou no seu pé. Logo em seguida, uns gritinhos, e o garoto aparece pela porta, ainda não tinha total controle de seus movimentos, mas já sabia chutar e pelo visto, queria compartilhar a descoberta. Primeiro meio sorriso do dia, porém, sincero. Jogou a bola algumas vezes e era engraçado ver aquelas perninhas errar tantas vezes um alvo tão fácil. E era muito bom ver ele vibrar com as poucas que acertava.

- Tome. – disse a mulher, também sem encará-lo.

Agarrou a caneca com as duas mãos. O calor e cheiro do café fizeram seus olhos fecharem por um momento e sentiu que ali seu coração se aqueceria para sempre.

4 comentários:

  1. às vezes, um simples e singelo ato nos faz ter a maior das alegrias. Muito delicado esse teu conto! Beijão, Sheyla!

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  2. Bonito. Ainda bem que te descobri...
    mas conta, foste ver Little Joy ?
    Beijo deste lado do Mundo

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  3. Muito bom!! A elegância da simplicidade, da delicadeza...

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Tua vez, aproveite.