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21 de abr de 2010

Herança



Deslizou a lâmina devagar, porém, firmemente, da altura do peito descendo até o ventre. Depois de traçar o corte, recomeçou, agora com força e precisão, ouvindo o estalar dos ossos.
Aquela era, sem dúvida, uma ótima faca. Puro aço inox, cabo roliço, com belo acabamento em chifre de cervo. O desenho já gasto, de dois bonequinhos idênticos e unidos pelos pés, mal se via sob a lâmina e causava, por estranha e desconhecida razão, insistentes calafrios em sua mãe, que por conveniência, talvez, não dera falta do item herdado de sua avó. A velha, aliás, poderia ter deixado pra ela o aparelho de jantar ao invés daquela poltrona velha e embolorada.
Parou por um instante entre o coração e os rins e ficou se perguntando, onde andariam aquelas porcelanas todas que nunca mais viu na casa de nenhum familiar.
A carne era tenra, irrigada por muitos vasos sanguíneos, seria fácil cortar em pedaços. A pior parte é retirar as vísceras. Suspirou.
Ao cabo de algum tempo, estava tudo resolvido. Tudo limpo e em ordem, como sempre foi, com cada coisa no seu lugar, sem cheiros ou manchas. Passou de leve os dedos pela lâmina, embaixo da torneira. É incrível como todo o odor se consome com o aço!
Olhou novamente e sorriu com um canto da boca. As coxas a faziam lembrar-se de alguém: roliças e com aqueles furinhos avermelhados, pós-depilação.
Largou o avental sobre a mesa, e foi tomar um merecido banho. Seria uma bela noite.


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2 comentários:

  1. Olá,
    Tive contato com o teu blog no da Maratona Literária.
    Agora vim conhecê-lo e seguí-lo.
    Desde já és convidada a visitar o meu.
    Saúde e felicidade.
    João Pedro Metz

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  2. Bombom, bom blog! Tem sido um pouco difícil achar coisas de qualidade nessa tal "blogosfera". Parabéns!

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