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20 de jan de 2009

Unplugged


Ele simplesmente não conseguia. Tentativas, muitas. Fracassos, na mesma proporção. Acordava muito cedo pelo smartphone, que já ia como cinto de utilidades direto para a barra da cueca até o banheiro, onde ele colocava em cima do balcão da pia e ligava no arquivo de mp3, é sempre bom acordar e ouvir Coltrane. Recebeu duas mensagens enquanto estava debaixo da ducha e até já sabia de quem eram, afinal, passou boa parte da madrugada no messenger com ela. Mulheres...São tão divertidas e interessantes, até o dia depois, quando acordam ao lado na cama e querem implantar um chip de rastreamento por satélite na nossa pele e carimbo na testa com os dizeres “Propriedade privada. Afaste-se!”, pensava ele, manejando um barbeador de última geração mas que ainda assim, fazia gotículas de sangue despontarem na pele branca do pescoço, perto do pomo-de-adão. Arrumou-se com esmero, sapatos cool, minimal look, chá de maçã. Chegou por volta das nove, abriu o notebook em cima da mesa e começou a trabalhar. Milhares de e-mails, pautas, textos, banco de imagens. Pausa para o café. Foi até a janela, 12º andar. A vidraça refletiu a imagem de que ele deveria retocar o dragão japonês no braço direito. Bem, era um belo braço, e nem malhava! Não tinha tempo. O silêncio foi cortado pela musiquinha característica do aviso de mensagem nova no e-mail. Era dela. Bonita, sem dúvida, lembrava um pouco Jane Birkin. Por que eu não consigo? Eu já conheço essa historinha. Sei onde vai dar e, no entanto, é como um vício; ele questionava sem tirar os olhos das fotos dela num site de relacionamentos. A secretária eletrônica passou todos os compromissos do dia. Como última tarefa, uma vídeo-instalação com coquetel numa galeria de arte, e então, acupuntura. Ele estava precisando. Enquanto as agulhas picavam seus pontos mais tensos, ele atualizava seu blog, microblogging, alguns perfis em sites de relacionamento, e tentando comprar um ingresso para o jogo de futebol online. Mesmo seu terapeuta citando o Dalai Lama, não resolvia. Colocou os fones no ouvido, ele estava mais para Chet Baker, Bukowski, Crumb, nessa noite. Era uma alma perdida, nunca mais conseguiria se livrar disso. Musiquinha de novo: “Received message”. Em poucos minutos, estava lá, na frente dela. Depois do primeiro beijo, que viriam muitos depois, ela desligou o smartphone dele, tirou todos os aparelhos das tomadas e apagou a luz. Pelo menos durante algumas horas, não estaria com máquinas, afinal.

4 comentários:

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