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6 de mar de 2010

Medo

Faz algum tempo que cheguei a uma conclusão de que o medo é uma das principais emoções mais poderosas e uma das mais nocivas. “Ah, mas o medo existe para proteção”, dirá os mais afoitos, mas não me refiro a esse medo ancestral que nos trouxe até o nosso século através de todos os perigos a que estamos expostos, da bactéria ao meteoro.

Refiro-me àquele medo que nasce em pequenos jorros e se desdobra pelas frestas da alma, no corredor dos anos. Do apagar da luz, da rua escura, do “não” ou do “sim”. Aquele medo congelante que petrifica e nos conduz a um labirinto de incógnitas jamais respondidas, gerando ansiedades fetais que vão se transformando em tantas coisas, até virarem monstros gigantescos que nos devoram no café da manhã.

Medos que arrastamos em correntes pela vida inteira e que nos afogam em mares desconhecidos, bravios, sem vestígio de farol.

Medos que somos incapazes de enfrentar, de olhar no espelho, sequer ousar um palpite de sossego. Porque ele parece faminto e insone. Porque ele sempre parece bem maior do que realmente é.

Tanta gente morre com medos velhacos, sorrindo sem dentes na sepultura, por milênios, esperando novos hospedeiros, igualmente incapazes de se despir da penosa carga.

Medos monstruosos e covardes, estalando colunas cervicais, remoendo intestinos grossos, destruindo histórias que poderiam ser diferentes.  Medo, pai da ansiedade, da raiva, do desassosego, pintados de tantas formas, na crueza áspera da indecisão. Muito medo pra pouca coragem. Qual a cor do teu medo?

 

4 comentários:

  1. O medo ancestral é puro instinto, um mísero mecanismo de proteção.
    Acho que tu se refere às sombras da noite, escorrendo por baixo da porta, corpos confundidos pela mente, sem saber se sim ou se não. Na dúvida, os corpos ficam estáticos, apavorados em ter de fazer uma escolha.

    É o medo da meia noite, Sheyla, o mais sacana de todos eles...

    Beijo!

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  2. :) Fim da tarde, o sol penetra na terra, na mais linda de todas as cópulas, fazendo, aos poucos, surgir a noite. Mas antes dela chegar, existe um instante em que as cores explodem em silêncio, é o crepúsculo. E o crepúsculo, Sheyla, é gozo do mundo!
    Eu tenho medo do crepúsculo!
    Hahaha! Mas que bobagem! :P

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  3. Tenho medo de mim...de acordar e não me conhecer, tenho medo de olhar para o relógio e perceber que já não há tempo para mais ! Tenho medo de sentir o fim !
    Belo post. Um tanto angustiado, mas belo !
    beijo doce deste lado do mundo.

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