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11 de jul de 2008

A Guerra

Helmut abotoava com cerimônia o casaco de seu uniforme negro, impecavelmente limpo e passado. Olhava-se no espelho e reprovava a barba por fazer e as profundas olheiras, mas não tinha tempo para essas frivolidades. O tic-tac do relógio, refletido também no espelho, alertava sobre seu atraso, coisa que não o agradava tampouco.
Deixando os olhos descerem mais um pouco, através do espelho, parando num ponto, entre ele mesmo e o relógio pendurado na parede descascada e mal iluminada de um quarto de hotel ordinário. Sua íris azul violeta pousaram demoradamente num corpo em repouso na cama de lençóis encardidos.
Um fio de saliva escorria pela boca entreaberta dela e uma madeixa de cabelos escuros ocultavam seus olhos fechados no mais profundo sono. Chegou próximo ao ventiladorzinho em cima da penteadeira, como se quisesse espantar todos aqueles pensamentos conflitantes que alfinetavam sua cabeça nos últimos dias.
Deveria odiar Ruth. Deveria extermina-la da face da Terra. Afinal, era por causa dela e de sua gente que seu país estava naquele caos! Era por causa deles que muitos amigos haviam morrido, numa guerra ensandecida.
E, no entanto, desde o dia, desde aquele maldito dia em que a viu pela primeira vez, sua sanidade estava perdida dentro daqueles olhos grandes e sombrios como a noite, nos cabelos em cascatas castanhas, na pele bronze daquela mulher que agora, dormia feito uma criança.
Aproximou-se dela, tanto que agora sentia a respiração em seu rosto. Poderia dar cabo àquela vida nesse exato momento. Simples e eficaz, com apenas um golpe, sem ao menos fazer barulho ou a tempo dela ensaiar algum gemido.
Afastou a mecha de cabelo do rosto dela. Mas, ah! Como era bela! Assim, indefesa, com as batidas do coração pulsando num ritmo compassado na veia azul de seu pescoço, monótonas.
Apanhou a boina com um símbolo de cima do criado-mudo e colocou. Deu mais uma olhada para Ruth, já na porta, mas não teve coragem de encarar novamente seu duplo no espelho. Bateu com força.
Era um homem que fora escrupulosamente selecionado dentre tantos. E lá, na trincheira, no campo de batalha, numa emboscada, era onde ele vomitava todo o seu ódio, incompreensão, desespero. Lançava-se aos inimigos como uma fera. Um berro que explodia na garganta e seu corpo inteiro se transformava numa arma fria e certeira. Cometia atrocidades que durante seus sonhos, vinham atormentá-lo e acordava em espasmos e choro.
Porém, a fera maior e mais violenta continuava ali, de dentes afiados, comendo seus órgãos internos. Aquela fera só se tranqüilizava quando ele retornava para aquele hotel imundo e encontrava Ruth, e adormecia no calor de seus braços redentores e por alguns momentos, era como se ao fechar a porta, o mundo passasse a não existir.
Essa era a fera maior, a qual ele se ajoelhava e implorava perdão por todo o sangue grudado em suas mãos, em sua roupa, ensopando seu corpo e alma, em seus pesadelos fantasmagóricos.
Assim permanecia, dividido entre dois amores, duas paixões, louco e febril. E durante muito tempo, depois de tudo, ele abotoava seu casaco negro de botões dourados e cruzava a porta do quarto, cerimonialmente.

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