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14 de jul de 2008

A ignorância é o pior de todos os males

A turba ensandecida o cercava, com paus e pedras nas mãos, enquanto que não muito longe dali, a mãe corria chorando com sua filha, agora sã, nos braços. Ela queria chegar a tempo, ela precisava!
O rapaz, de tez parda e olhos de açafrão, nada dizia. Sabia que seus feitos alegravam alguns, mas assustavam a muitos. Seus pais tentaram de tudo para livra-lo desse destino, mandando-o estudar medicina nas melhores escolas da Síria. No início, ele usava apenas as técnicas aprendidas nas aulas, mas com o tempo, passou a incorporar seus próprios métodos aliados às técnicas, para não causar tanto assombro.
Viajava toda a Ásia e Mediterrâneo, fazendo curas inacreditáveis, apenas com o toque, com uma palavra, com um olhar. Não aceitava dinheiro. Apenas a amizade, ou uma cama para o pernoite, e uma refeição modesta para seu corpo, jovem e leve.
Passio vivia assim, da caridade alheia. Aceitara sua missão, um poder incompreensível e natural, que saía de sua aura e inundava todo ambiente em que estava. Também não compreendia, mas isso não interessava. Era compelido àquela obra, como uma mãe a dar à luz.
O ódio, quando incitado por um grupo, logo gera uma multidão, fazendo com que esse sentimento negativo se transforme numa reação em cadeia, apenas culminando quando o sangue é derramado, a carne estraçalhada, e o espírito limpo, novamente.
-Bruxo! Bruxo! Bruxo! – gritavam, e o som ressoava como um grito de guerra, num campo de batalha.
Não interessa se havia apenas um frágil garoto como inimigo e um grupo de umas cinqüenta pessoas querendo fazer justiça com as próprias mãos.
Justiça. Uma palavra débil e oca.
Então, a primeira pedra foi lançada pelas mãos de um velho de cara azeda e cheia de vincos como um mapa fluvial. A partir dessa, muitas outras vieram, e também a coragem dos covardes nasceu em pauladas intermitentes. O som dos ossos quebrando. O corpo curvando-se, crispando-se, tombando. Os respingos do sangue fazendo desenhos pitorescos na parede onde tinha sido encurralado. E só pararam quando cessou o movimento de seu peito.
A mulher chega, então, cambaleante e chorando com um desespero aterrador. Penetra no bolo que se formara em torno do corpo moribundo. Já era tarde demais, a justiça tinha sido executada. A maldade removida, o incompreensível, aniquilado, e a paz restabelecida.
A menina curada em seu colo, olhava sem entender nada, alheia a tudo, apenas feliz, por novamente poder andar sozinha, com suas próprias pernas.
O povo então, olhava para a mulher ali, deitada sobre o corpo inerte, e para a menina, que se abaixava ao lado da mãe, com seus olhos de oliva, reparando nas lágrimas que rolavam.
Foi quando um leve perfume de lírio se fez. Um vento gelado soprou, invadindo as almas ao redor, soprando suas entranhas. E uma imagem se formou, acima de suas cabeças. Era uma luz cintilante e suave, e quando abriu os olhos, todos reconheceram o açafrão de seu olhar tranqüilo. Não disse uma única palavra, mas todos compreenderam que haviam perdido: o espírito é livre e eterno.
Foram todos para suas casas, num silêncio que quase se podia ouvir, de tão intenso. Tempos depois, no lugar da chacina, construiu-se uma singela capela, com lírios nos umbrais e nas janelas.

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