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16 de jul de 2008

Os três Marias



Esta é uma história sobre a amizade. Na verdade, o destino com suas surpreendentes ciladas, nos uni de forma inesperada e causa-nos até espanto sua sutil atuação, especialmente nesse caso, os amigos Cadu, Argos e Lucio.
Em um modesto sobrado de alvenaria, vivia Carlos Eduardo. Desde criança, "Cadu", como chamava sua tia Leonor, tinha uma grande paixão por rodas, motor e chaves de ignição. Tanto que ela não esquece nunca do dia em que, aos oito anos de idade, Cadu deixou seus tios em maus lençóis: foram convidados a depor pela negligência absurda de permitir menor de idade ao volante, sendo que, mal alcançava os pedais.
Entretanto, fora esse pequeno incidente, Carlos Eduardo cresceu sem dar muito trabalho aos tios. Era um rapaz estudioso e dedicado. E possuía a Carteira Nacional de Habilitação. Cadu se sentia realizado e costumava dizer que agora, podia dirigir desde uma carroça até um ônibus espacial. Mas o seu trabalho como taxista já o deixava satisfeito.
Já era final de tarde, e Cadu dirigía-se rapidamente à sua última viagem do dia, quando uma criatura atravessou a sua frente, vindo não se sabe de onde. Não fosse seu ótimo reflexo teria atropelado seu futuro amigo, Argos Godoy que, ao contrário do nome, era extremamente distraído.
Argos era de estatura mediana, pele bronzeada e cabeleira crespa. Possuía dentes branquíssimos que, ao sorrir, reluziam de forma muito simpática, de modo que Cadu não chegou a ficar totalmente furioso. Acenou ao taxista, desculpou-se e seguiu até o bar "Bira&Lira", onde seu grupo já o aguardava para iniciarem mais uma noitada de algum blues, jazz e sabe-se mais o quê. Chegou a convidar Cadu para assistir ao show, mas este agradeceu e combinou que iria outro dia desses.
Felizmente seu atraso quase não foi notado, pois o filho do dono do bar, conhecido como "Lúcio Lira" quando cantava, ou "Lúcio Bira" quando bebia além da conta, estava dando uma palinha aos convivas. Argos terminou com a festa improvisada oferecendo uma dose de conhaque naquela fria noite que começava. Foi o suficiente para tornarem-se amigos.
Lúcio estava com uma felicidade especial projetando dos olhos, e sua contumaz bebedeira não produziu o efeito de sono angelical. Ao contrário, assistiu até a última música do repertório, cantou junto, aplaudiu e saiu porta à fora, dizendo que a noite mal havia começado, que era uma criança. Aliás, que a noite era uma linda mocinha de olhos cinzentos, de luvas brancas e sapatilhas antiderrapantes. É claro que ninguém entendeu nada e acharam que era efeito da bebida.
No outro dia, já recuperado, mas não menos feliz, Lúcio, coincidentalmente, tomou o táxi de Cadu. Principiou a cantarolar uma música e Cadu providenciou que o volume do rádio aumentasse ao máximo. Numa transação hostil, o protesto de um aos berros do outro, Lúcio calou-se e Cadu deu fim a mais um hit da moda. Sorriram, cúmplices pelo acordo justo, e assim se conheceram. Novamente, Cadu foi convidado a visitar o bar, e desta vez, mais disposto, prometeu que iria naquele dia mesmo.
No fim-de-semana seguinte, Cadu era outro homem. Estava de folga e esperava por Maria Eduarda, na porta do cinema.
Também se conheceram numa de suas corridas de táxi. Ela fugia de uma tromba d'água que desabou logo após o término de sua aula de esgrima.
Que reparos milagrosos fazem a paixão nos homens! Agora, quando algum motorista ou pedestre cometia uma imprudência, sua pressão não voava às alturas como de costume. Do contrário: sentia até pena dos miseráveis. E ele sabia o que aquilo significava: amor eterno. Em um mês, estavam noivos.
Para celebrar, foi até o bar "Bira&Lira" com alguns amigos e lá, encontrou Lúcio, que ajudava ao pai no caixa e, no palco, Argos, que acabava de dedicar a próxima música à sua namorada, Maria Alice, que não estava presente. Já eram altas horas, quando Argos convidou Lúcio para subir ao palco, juntamente com Cadu, para cantarem em homenagem a todas as Marias.
Na tarde do dia seguinte, Lúcio que havia caprichado no visual, vestia um terninho "mod", pois Maria Cláudia curtia muito os anos 60. Ficou muito bem, não fora seu velho tênis, já roto, o qual usava apenas em ocasiões especiais: primeiro porque era uma espécie de talismã; e segundo, porque temia que se desmanchasse.
A moça, de olhos cinzas de gata, ao ultrapassar os portões da escola, lançou-se até Lúcio e deu-lhe um romântico beijo. Mostrou os novos golpes e movimentos com o florete que aprendeu naquele dia, esbanjando uma alegria infantil que comovia o apaixonado Lúcio. Em contrapartida, Lúcio tomou sua mão e colocou um lindo anel de compromisso.
Passaram-se alguns meses, Argos e Maria Alice, por sua vez, tratavam com o padre a data do casório. Ele perguntava se o coral da igreja poderia ser substituído por um trio de cordas acústico, ou algo mais moderno; enquanto ela cogitava casar com um vestido xadrez, como as nobres medievais francesas. Por fim, decidiram que Maria Alice casaria de branco virginal e a pedidos lacrimosos de Argos, o coral foi substituído por um teclado.
Foi difícil achar um dia disponível e chegaram a pensar que toda a cidade casaria na primavera. Como Cadu e Lúcio passavam pela mesma situação, Argos teve uma idéia que amenizaria a situação. Juntou os amigos e decidiram que casariam no mesmo dia, horário e local. E assim, foram comemorar no "Bira&Lira".
Enfim, o grande dia chegara. Estavam os três, já no altar, na hora marcada. Cadu, com seus gestos vigorosos e olhar desconfiado, cerrava os dentes, salientando seu belo maxilar. Usava um fraque de muito mau gosto e apertado, pois possuía costas largas. Lúcio, entre eles, chorou ao ter que calçar um mocassim de couro marrom, ao invés de seu velho talismã; e inconscientemente, já sabia que aquela empreitada não poderia dar certo. O mais relaxado era Argos, que brilhava com sua dentadura árabe, distribuindo sorrisos até às flores. Escolheu um terno risca-de-gis azul marinho que comprou num brechó.
Ao passar de uma hora, tanto os noivos quanto os convivas, estavam nervosos e agitados. Argos já não sorria mais e sua vontade era de engolir todas as flores da igreja, começando pelo cravo da lapela de Cadu. Deste, se escutava o ranger dos dentes já na entrada da igreja, e Lúcio, cujo gel escorria dos cabelos, não agüentando mais, enfiou-lhe o cravo na boca.
Enquanto mais da metade dos convidados tinham ido embora, os três noivos abandonados sentaram-se no degrau do altar. Foi quando o pai de Lúcio chegou-se até eles com cara de novidades.
E que novidades! Disse-lhes ele que Maria Eduarda, Maria Alice e Maria Cláudia não existiam; ou melhor, que eram a mesma pessoa. Num instante, aquela revelação causou uma enorme confusão de vozes e ninguém se entendia. O padre, ouvindo tudo, fez o sinal da cruz, e lembrou-se da Santíssima Trindade. Mas os rapazes, que já começavam a entender tudo, disseram palavrões, sendo expulsos da igreja.
Resolveram ir até a casa da bruxa que os enfeitiçou e os fez de palhaços, mas o providencial pai de Lúcio já havia feito e, chegando lá, não encontrou nenhuma viva alma, pois já havia partido, levando anéis de casamento, presentes, tudo, inclusive um automóvel, presente do pai de Lúcio.
Cadu saiu em direção ao seu carro e voltou de lá com uma arma que carregava dentro do porta-luvas, em caso de assalto. Chorava e dizia que se mataria em frente à imagem da Virgem Nossa Senhora, que também se chamava Maria. Argos e Lúcio, que já estava descalço, convenceram-no a desistir da loucura, dizendo que havia coisas muito mais importantes no mundo e que ela havia feito até um bem para eles não comparecendo aos seus verdadeiros enterros. O povo aplaudiu então, quando Lúcio retirou a arma das mãos de Cadu. Depois viram que a arma estava sem munição.
Hoje, eles ainda encontram-se todas as sextas-feiras no "Bira&Lira", onde a amizade começou. Sem lembrar do passado, soltam grandes gargalhadas e cantam juntos até o sol raiar.
São muito conhecidos pelas criaturas noturnas, boêmios e afins e dizem que até fazem parte da cultura local. Mas, sempre numa mesinha distante, em tom sussurrante e sarcástico, vez por outra são chamados de "os três Marias".

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