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5 de ago de 2008

Sem papo


É quando a gente é apresentado a alguém e o amigo em comum vira as costas e sai. Aí ficam ali os dois semi-desconhecidos, com cara de besta olhando de vez em quando um para o outro, tentando se lembrar de algo agradável para falar e buscando nos arredores algum motivo para comentário – por isso sempre os comentários cansativos sobre o tempo. Parece que todo mundo tem um astrônomo em potencial para ser usado em momentos como esse. Mas, o papo sobre o tempo tem duração exígua e se não conseguir nada além disso, reze para o amigo em comum retornar logo.
Mais chato ainda, é quando o alguém é aquela pessoa que não se vê há décadas. Nada, nem telefonema, nem carta, nem se ouviu falar mais da pessoa e de repente, se esbarra com ela na fila do caixa eletrônico. Em alguns segundos, aquele rosto reconhecido, é rastreado pelo cérebro que tenta buscar o arquivo do cara, com informações básicas, como nome, de onde o conhece, algum fato mais relevante. Então, dependendo do arquivo, é bom só dizer “Tudo bem! Quanto tempo! Tudo de bom pra ti!” E sair à passo. Isso se a pessoa esboçar sorriso, pois o teu arquivo pode não coincidir com o que ela guarda sobre ti.
Tem aqueles também, que vemos a pessoa seguidamente, no trabalho, na escola, supermercado, em casa. Só que não existe papo. Simplesmente, a coisa não flui. Se fala, geralmente, sempre sobre as mesmas coisas, como uma esperança para que dali, se parta para novos rumos, porém, é estanque. É como se já houvesse um programa limitado feito especialmente para essas criaturas, nada mais pode ser acrescentado.
Mas, não só relacionado à pessoas e diálogos, tem aqueles dias em que acordamos e não estamos com a mínima vontade de vocalizar. Até na padaria, quando chega a tua vez, ao invés de falar, aponta o que quer e indica a quantidade com os dedos. Isso, claro, com um headphone a toda altura. Nas reuniões de família, aquela euforia antes do almoço de domingo e tu lá nos fundos da casa, e se perguntam, diz que está analisando o trajeto das formigas nesse período do ano.
Pior mesmo, é responder porque se está tão quieto. Como se fôssemos obrigados a falar o tempo inteiro. Acho que nem o Faustão consegue falar o tempo todo quando não está na frente das câmeras. Se está quieto é óbvio que é porque não se tem papo, ou não se está afim de papo, ou não se tem nada melhor a dizer. Ou, cala a boca e beija logo.

Um comentário:

Tua vez, aproveite.