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18 de fev de 2009

Ácido acetilsalicílico


O dia estava infernalmente quente. As têmporas doíam numa dor de cabeça dilatada, e as pequenas bolhas no queixo e em cima da boca não paravam de aumentar, não importasse quantas vezes passasse as costas da mão. A blusa de algodão bege grudava na pele e tudo latejava, desde os tímpanos até o couro cabeludo. Quanto tempo ela suportara? Quantos dias, meses, anos? E essa maldita TPM, por que não acabava?
Ficou olhando para ele, ali sentado, sem dizer palavra. Parecia tão ridículo agora, amarrado. Aquele olhar de cachorro que acabou de roubar um petisco de cima da mesa.
Apertou a tecla play do aparelho, novamente. Começou o martírio para ela, mas devia ser o último pedido dele, ela tinha certeza. Aquela música que ela ouviu anos a fio, sempre no mesmo horário, com várias repetições, com o som no volume máximo, por minutos, horas seguidas e que ela tinha vontade de estourar os miolos a cada audição.Como era mesmo a letra? Ah, sim, “mas eu ainda não encontrei/ o que estou procurando”. Surpresa, querido, eu achei pra você! Um disco de metal que vai ficar gravado para sempre na sua cabeça. Agora, abra a boca, ordenou impaciente. O disco deslizou frio sobre a língua, fechando num compartimento craniano de onde não sairiam mais notas musicais.

Um comentário:

  1. adorei a descrição da aspirina. Dá pra vender a idéia (ops ideia) pra Bayer.
    De repente, aparece uma mulher apertando as têmporas enquanto a voz do Arnaldo Antunes lê o texto. Sucesso, não acha? Abs

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