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9 de abr de 2009

A Carta

Lugar qualquer, sábado a noite.

Antes de tudo, peço que me desculpe. Desculpe pelas palavras rudes, pelo olhar de ódio derramado quente, pelos gestos áridos, pela raiva contida que nem sabia por que estava ali e estava. Desculpe por essa carta. Desculpa parece palavra inexata, vazia de significado, mas não conheço outra para usar nesse momento.
Há tempos que essa idéia vem crescendo, me persegue e mastiga por dentro. E, ultimamente, parece que tudo em volta converge para ela.
À parte de todos os argumentos que conheço tão bem, inclusive carregados de emoção, olhar enternecido e tom de voz cicatrizante, sei que é a melhor atitude, dispenso qualquer bom conselho, bom senso, psicologia de boteco, até de Harvard.
Desculpe, mas sei verdadeiramente que tudo continuará a ser como sempre foi e será, com ou sem mim. Em pouco tempo, serei apenas uma lembrança perdida entre tantas outras até que desapareça de vez, como os átomos que me sobrarão. Eu sinto muito.

P.S: Sei que tudo vai dar certo, tenho certeza! Tudo ficará bem, acredite.

19:11 – Eu ainda estou aqui, será que nem disso sou capaz? Tenho medo de tentar e falhar, é preciso que seja definitivo.
19:26 – Não há um desejo para se nascer e no entanto, pode haver o desejo de morrer, de não querer mais fazer parte...
20:03 – Poderia ser mais simples, nada de cianureto, difícil de conseguir sem levantar suspeitas; nada de pólvora e navalhas, sujando tudo. Podia-se deitar, solene e dignamente, e dizer a um comando “quero morrer” e ver o último arquejar do peito.
21:18 – Ela ainda está à minha frente e espera, em silêncio, a atitude final. Tenho a fina impressão que se tivesse boca, um sorriso maldoso estaria exposto no canto esquerdo, dizendo sem dizer: “covarde!” Mas, a carta observa meu não-ato, ridículo e solto agora nas horas que passam como uma comédia pastelão sem graça.

A observo de longe, em cima da mesa. A letra num azul índigo, miúda, mas escrita com pressão. Vou levantando aos poucos do chão, chegando mais perto, com cuidado. A luz do abajur dá uma tonalidade amarelada ao papel branco, pautado.
Assim que consigo reunir toda força que preciso para um impulso, agarro a ponta do papel, que vem em minha direção junto com o braço e uma caneta voa longe, parando perto das rodinhas da cadeira. Algumas palavras arranham a retina, cravam as unhas no meu peito. Então, começo a rasgar com unhas de gato de lata de lixo e a despedaçar aquelas frases todas malogradas de esperanças. As palavras vão sangrando pelo tapete do quarto, se misturando com água e sal. Não há navalhas, nem cianuretos. Apago a luz. Boa noite.

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