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24 de abr de 2009

Ciúme


O silêncio era tamanho que mesmo deitada enrolada feito um gato, com as mãos nos ouvidos, ainda assim, ouvia o som da água corrente no chafariz do jardim da casa em frente. Ouvia também, aquela pulsação incômoda nas têmporas e um frio avassalador cortando sua pele e fazendo seus ossos tremerem, enquanto as mãos suavam frio.
Fechou os olhos com força e foi deslizando sob as cobertas, até sair da cama, trôpega. Um leve murmúrio agitou-se com o arrastar de seus pés pelo corredor. Seus dedos pelas paredes desenhavam abstrações e a outra mão, na boca, roendo unhas quase inexistentes.
Estava na cozinha e os ruídos aumentaram de intensidade, agora, eram gemidos abafados e uma respiração nervosa.
Sentou sobre a mesa com os pés na cadeira de metal; empurrava e trazia de volta, quase a deixando cair. Pegou distraída uma maçã da cesta e mordeu com gosto, sentindo o sumo da fruta escorrer pelos cantos da boca. Largou a maçã e limpou a boca com as costas da mão.
De um salto, encaminhou-se devagar em direção ao corredor que levava à despensa. A porta ficava quase escondida e não havia lâmpadas. As pupilas foram aos poucos se acostumando com a ausência de claridade. Estacou em frente à porta com a mão suspensa sob o trinco prateado.
Os gemidos agora eram nitidamente audíveis e um pequeno alvoroço se fez por detrás daquela porta. Ela abriu.
Abaixou-se, escorregando pela porta, até o chão, olhando em silêncio. Quanto tempo mesmo, alguém sobrevive sem água?
Levou instintivamente a mão ao rosto, já estava cheirando mal todos aqueles dejetos, vômitos e urina.
Pegou uma madeixa de cabelo comprido. Eram belos e fortes. Os olhos também brilhavam na escuridão, um brilho fantasmagórico. Olhou para o corpo, estava bem mais magro nessa última semana, irreconhecível até, sem aquelas curvas de antes.
Levantou num instante e sentiu uma mão segurar seu pé. Os grunhidos eram insuportáveis sob a mordaça. Soltou-se com um chute forte e logo um silêncio se fez e então, saiu, chaveando a porta.
Agora, ela tinha outros assuntos mais importantes: reencontrar seu grande amor, agora livre e mais tarde, planejar como se livraria de um corpo tão inconveniente.

Vídeo do conto:

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  2. Obrigada pela visita, mas por gentileza, mandem seus comentários pessoais para o meu e-mail. Esse é um blog de textos e contos fictícios, não um diário.

    Grata e volte sempre!

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