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2 de abr de 2009

Os olhos

Viram-se pela primeira vez no supermercado, no corredor dos cafés. Ela pegou um à vácuo, extra forte e ele preferiu um solúvel, tradicional. Despediram-se com um olhar de querer ver de novo, sem palavras. Da segunda vez, ela estava no ônibus, ele passou de scooter amarela, e ela achou o máximo, quando ele ao vê-la, piscou, de capacete branco.

Depois disso, ela aumentou suas compras de uma para três vezes por semana ao supermercado, comprava aos poucos, não fazia mais listas, para retornar sempre que possível. Numa dessas, ela já estava na fila do caixa e ele entrou, pegou um cesto de plástico verde e antes de entrar no corredor dos utensílios para o lar, deu uma olhadinha; ela reparou que ele tinha covinha na bochecha. E ele gostou da pantalona jeans dela.

Num sábado de manhã, ela resolveu correr no parque e o encontrou passeando com um beagle, se olharam, mas nenhum dos dois disse palavra ou sorriu. Apenas os olhos conversavam, silenciando o motor dos carros, o vento nas folhas das árvores, como se pudessem mergulhar um no outro, sem necessitar palavra, toque ou snorkel .

Viram-se assim, muitas vezes, em tantos lugares e situações, que um já esperava pela presença do outro, numa ansiedade de suar as mãos. Ver-se um na retina do outro era o êxtase, não necessitavam de mais nada.

Então, viram-se por mais uma coincidência num festejo de ano novo, no centro da cidade. Olharam juntos, quase lado a lado, em meio à multidão, os foguetes coloridos explodindo no céu estrelado. Assistiram uma passeata, um show musical, sem trocarem uma palavra. Ficavam, quando sozinhos, imaginando que nome teriam, que lugar do bairro moravam, que som produziriam suas gargantas, o que diriam um ao outro pela primeira vez.

Certa vez, almoçaram quase na mesma mesa, num restaurante; ele sem graça, ela sem jeito. Ela olhava mais para o prato e ele para a perna dela, de saia e sapatilha, parecia ser uma perna muito bonita. Nos olhos mesmo, se olharam só na hora de sair. Ela atravessou a rua, em direção ao trabalho e ele ao estacionamento, em direção à scooter amarela. De tanto se verem, ela já sabia que ele gostava de usar botas e ir ao teatro. Ele tinha certeza que ela gostava de música clássica e salada de rúcula. Ele preferia ir aos lugares, sozinho; ela, com as amigas. Ele fumava e mascava chicletes de canela; ela roia as unhas e não gostava de sapatos de salto alto.

Viram, então, passar um ano, em silêncio e olhares. No inverno, ele a viu num táxi. Mas dessa vez, os olhos dela não tinham o brilho de costume, era um brilho diferente. O táxi foi se afastando, fazendo fonte as poças d'água. E essa foi a última vez que se viram.

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