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29 de ago de 2010

Borderline





Juntou as mãos e as torceu lentamente, ouvindo as bolhas estourarem, possivelmente lesando as articulações, uma a uma. Empurrou os óculos suados entre os olhos e começou a digitar.

Mais um filha da puta tentando tirar o rabo da sujeira e se safar. Mais um monte de baboseira que já sabia de cor. Todos os dias, os cadáveres podres, os zumbis, os lesados, ignorantes e sagazes, vomitando pelos seus dedos, despejando em seu corpo um sêmem morno, gangrenando tudo. As juntas doíam cada vez mais e as teclas deslizavam sem erro da primeira respiração até a martelada final.

Sentou no último vagão e foi abrindo as pernas, lentamente. Àquela hora era a melhor: cedo, vazio, frio, nebuloso demais; apenas os trabalhadores noturnos, os melhores.

Hic et nunc. O rent a cop a comeu como uma marmita fornida. Desceram na última estação e terminaram tudo embaixo do viaduto, onde ele se despediu com um safanão seguido de cuspe na vadia.

E agora, ela notava, a escuridão desaparecera e o sol rasgava o dia, com todo vigor, o movimento aumentava, as buzinas, sirenes, apitos. O dia era uma fétida ejaculação.

Morava sozinha, comia sozinha, ria sozinha de todos eles, juízes viciados, advogados medíocres, viúvas estelionatárias, religiosos tarados.

Cento e cinqüenta palavras por minuto. Todas tão previsíveis, tão desnecessárias, descartáveis, como todos em volta, inclusive ela. Falava raramente. Preferia os gestos simples e universalmente compreensíveis.

No vestiário, usou um grampo para abrir o armário ao lado. A cadela tinha um Jean Patou, que ordinária! Tinha, do verbo se fudeu. Colocou o frasco rapidamente na bolsa e saiu o mais rápido possível.

De tarde, 20mg de Rivotril no café da mesa ao lado, numa lanchonete. Seguiu a moça pela calçada uns 50m até que a viu envergar um pouco a coluna e desabar em cima de uns sacos de lixo. O tombo mais bonito que já tinha assistido. O sangue brilhando sobre o saco plástico negro brilhando no sol a pino. Imagem digna de um Munch.

O elemento surpresa também era delicioso, como o caso da bomba peniana do caquético juiz da suprema corte. Enquanto a vítima se debulhava em lágrimas pelo assassinato do ente querido, ela sentia pulsar com cada vez mais energia a bomba sob as mãos trêmulas e o olhar embaçado do juiz.

Noite. Só acreditava nas pessoas a partir das 6 da tarde. Sem máscaras, sem uniformes, sem precisar encenar. Saía do Tribunal e umas quatro quadras depois, estava o prédio velho e com cheiro de mofo. Desceu do elevador e entrou na sala 107. Aroma de café e o telefone tocando. Três vezes por semana, era essa a rotina. Correu até o aparelho o mais depressa que pôde:



- Centro de Valorização a Vida, boa noite!





3 comentários:

Tua vez, aproveite.